Sexta-feira, dia de Penitência

Jejum não dói!

      “Penitência! Penitência! Se não fizerdes penitência, todos vós perecereis”. Assim pregou o Divino Mestre, e a Igreja o repete aos fiéis, agora, no tempo santo da Quaresma. Na quarta-feira de cinzas, o sacerdote, deitando sobre nossas cabeças o pó, lembra-nos o que somos e o que seremos. “Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris. Lembra-te, homem, que és pó e em pó te hás de tornar”.

      É o pensamento da morte eficaz para nos ajudar a fazer penitência. Que valemos? Que somos? Oh! Se soubéssemos meditar tão grande verdade, não seríamos tão insensatos!

      O pensamento da morte converteu Santa Margarida de Cortona, São Francisco Borja e os fez grandes heróis da santidade.

      Duas vezes a Liturgia da Igreja nos convida à meditação da morte — na quarta-feira de Cinzas e em Finados.

      O mundo ri-se da penitência, porque não a compreende. É insensato, não pensa e despreza o que é eterno. O homem animal, diz São Paulo, não percebe as coisas do espírito e de Deus. É de se estranhar que despreze e odeie a penitência?

      Para a conquista do céu não há outro meio a nós, pobres pecadores. Há só dois caminhos para a salvação eterna. Inocência ou penitência. Somos inocentes? Então? Resta-nos a tábua da penitência para que nos salvemos neste naufrágio de tantas e tamanhas misérias e pecados.

      A Igreja reserva-nos o tempo da Quaresma para a reparação de nossos pecados na oração e no jejum. Jejum não mata a ninguém. Estas meninas de regime para emagrecimento elegante jejuam rigorosamente por vaidade, por tolice mundana. E por amor de Deus, e para a salvação? Não admitem uma simples abstinência de carne.

      Ai de vós! Diz lá o Evangelho que perecereis. Omnes vos similiter peribitis. Todos perecereis. E a vossa perdição será eterna. Cuidado! O jejum é penitência eficaz, abranda as revoltas da carne, purifica nossa alma, enche-nos de graças. Na Quaresma se há de jejuar. É preceito da Igreja.

      Sem penitência o pecador não se salva. E não é tão grande penitência o jejum preceituado pela Igreja! Um leve sacrifício para reparação de enormes pecados!

      Muita gente delicada e mole se horroriza com o jejum. É a legião dos inimigos da cruz de Jesus Cristo no expressivo dizer de São Paulo. E quando não insultam a Igreja e combatem o jejum, certos cristãos, de idéias pagãs e gozadores da vida, arranjam a desculpa de que é prejudicial à saúde.

      Está o cemitério povoado de gulosos e dos que passaram para a eternidade após os excessos de banquetes e bebedeiras. Pouca gente morre de fome, e muita de indigestão. Que o digam os médicos e os coveiros. Vida de jejuns e penitências levam os monges, e morrem velhinhos e de cabelos brancos.

      Os cartuxos, por exemplo, não comem carne nem quando enfermos. Durante oito meses do ano comem uma só vez ao dia. Toda sexta-feira jejuam a pão e água. Apesar disto gozam ótima saúde. E dizem os médicos, e está provado com fatos: “Na Cartuxa as enfermidades são raras e a longevidade freqüente”. Urbano V quis mitigar os rigores da Regra cartuxa, por julgá-la excessiva em austeridades e talvez insuportável. Os monges pediram a Sua Santidade que não suavizasse a velha regra de São Bruno. E para provar que não prejudicavam a saúde, nem abreviavam a vida os jejuns de Cartuxa, mandaram a Roma uma comissão de vinte e sete cartuxos, dos quais o mais jovem contava apenas... oitenta e oito anos... Diante disto, o Papa cedeu.

      Ó delicados cristãos, inimigos da cruz e do jejum; não haverá perigo: o jejum da Quaresma não vos matará! O jejum é medicinal, evita muita moléstia, descansa o estômago, faz bem à alma.

      Não vos assuste a ligeira penitência da Quaresma. Outrora, nos tempos de mais heroísmo e de fé, jejuava-se na Quaresma a pão e água nas sextas-feiras.

      Hoje está o jejum mitigado e tão suave! Pois, ainda assim, não o querem fazer! Ressoe aos vossos ouvidos delicados a voz do Evangelho: Se não fizerdes penitência... perecereis. E... todos... todos...

Do livro Variações do ‘Meu Cantinho’
Monsenhor Ascânio Brandão
págs. 212-214 - Ed. Vozes, 1951

 


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