Oitava de Páscoa

Sexta-feira

Sexta-feira da Oitava da Páscoa

“Ó Deus, que manifestais vossa onipotência sobretudo perdoando...”
(Oração do 10º. domingo depois de Pentecostes).

“Perdonare” é uma forma tardia [da palavra] que não se encontra em [São] Tomás. A palavra correspondente e usual, por ele empregada, é par-cere. No entanto, encontramos em S. Tomás as razões filosóficas que justificam a grandiosa etimologia das formas modernas: “perdoar”, “perdão”, “perdonar”, “pardon”, “pardonner” etc.

O prefixo per acumula os sentidos de “por” (“através de”) e de plenitude, grau máximo: como em perlavar (lavar completamente) perfulgente (brilhantíssimo), per-feito, per-manganato etc. E, assim, o perdão aparece como o superlativo da doação.

(Prof. Jean Lauand - excerto da Conferência Antropologia e Formas quotidianas - a Filosofia de S. Tomás de Aquino Subjacente à nossa Linguagem do Dia-a-Dia)

“Não posso castigar, mesmo o maior dos pecadores, se ele recorre à Minha compaixão, mas justifico-o na Minha insondável e inescrutável misericórdia”

(Diário de Santa Faustina, nº. 1146)

Jesus Ressuscitado entre os apóstolos

Reconhecia-se o Senhor pelo perdão dos pecados. Era a Boa Nova, o sentido de Sua vinda: “Ide dizer ao povo... que os pecados são perdoados”. Jesus é essencialmente: Salvador. “Onde o pecado abundou... superabundou a misericórdia”. Ele não vinha suprimir os pecados, vinha perdoá-los.

Não vim para os “justos”, dizia Ele, mas para os pecadores.

Os que não puderam suportar esta misericórdia O rejeitaram. Os maometanos recusam-se a crer na divindade do Cristo porque não podem aceitar a idéia de um Deus tão “injusto” -- que não Se vinga de Seus inimigos, que atura tudo, que atura os maus e em vez de fulminá-los espreita ansiosamente suas veleidades de emenda!

“Há mais alegria no Céu por um pecador que se arrepende...” Se este pensamento nos enche de júbilo e simpatia, somos do Cristo. Se não desperta em nós senão irritação, despeito ou resignação, é porque nada temos ainda do Cristo. Somos talvez deístas, não somos certamente cristãos. (Quantos maometanos que se ignoram entre nós?)

“Só Deus pode perdoar os pecados”. Além do sentido jurídico desta afirmação, é preciso ver nela como uma descrição de Deus. Só Ele “sabe” fazer isso.

Não sabemos perdoar. Nossos perdões humanos são esmagadores. Dizem das mulheres que perdoam, mas não esquecem (quanto aos homens, são de tal modo egoístas que esquecem e só muito raramente têm o ensejo, a atenção, o aborrecimento de perdoar!). Em geral, o perdão é uma lembrança inesquecivelmente desagradável.

A superioridade dos que perdoam esmagou definitivamente os que foram perdoados. Perdoaram -- mas não souberam nem tranqüilizar, nem consolar, nem encorajar. Só Deus é capaz dessa proeza. Perdoar bem, é humilhar-se. O Pai do filho pródigo suplica que não toque mais no assunto. Dá ordens para um banquete! -- é esta a maneira de Deus. Só Ele sabe tornar Seu perdão uma lembrança luminosa; é-Lhe tão grato perdoar que se sentem, aqueles que Lhe deram esta alegria, não importunos nem incômodos, mas agradáveis, animados, compreendidos, úteis. Dilatados. Infinitamente melhores do que pensavam.

“Se não fôssemos pecadores, com mais necessidade de perdão que de pão, não teríamos o ensejo de conhecer a profundidade do amor de Deus”. (...)

Eis porque nossas confissões são sombrias e sem alegria. “Pai, dai-me a vossa bênção porque pequei”: compreendemos alguma vez que era um grito de alegria, um suspiro de alívio? Não dizeis: “Pai, puni-me, cobri-me de insultos”. Dizeis: “Pai, dai-me a vossa bênção, alegrai-vos comigo: vi afinal que estava errado e Deus é quem tem razão. Compreendi enfim que se minha vida era tão sombria, tão intolerável, a culpa não era dEle, era minha. Então tudo vai bem. Vou poder mudar. Vou poder deixar-me mudar... Ouvi tudo que vou mudar:...”

A enumeração de nossos pecados só tem sentido se for a evocação, cheia de reconhecimento, de uma série de libertações cujo início vamos, ali, fazer autenticar.

Na absolvição, Deus nos diz uma só coisa: que Ele nos ama, desejava perdoar-nos, alegra-se de absolver-nos muito mais ainda do que nós de sermos absolvidos. “Meu filho estava morto, voltou à vida: preparem um banquete!” (...)

Conheceremos que recebemos o perdão de Deus quando, depois de uma confissão, sentirmos, como Levi, que deixamos tudo. Quase sem saber. Porque nos teremos afinal deixado “tocar” por Ele, atingir por esse terrível apelo -- a mudar, a desarmar, a dar, a perdoar, a pedir perdão, a dizer a verdade, a tomar consciência, ao mesmo tempo, de uma imensa pobreza e de possibilidades infinitas. “Deixando tudo, ele O seguiu”.

Louis Evely
O Perdão in: Tu és esse homem

Novena à Divina Misericórdia - 8º dia
Novena à Divina Misericórdia